Dor de cotovelo.

- Pois não?
- Uma dose de xiboquinha. Meia de vodka.
- Mais alguma coisa?
- Ah sim, um Malboro azul.
- Desculpe, ainda não temos Malboro Azul.
- Então faz assim: manda aquela desgraçada se fuder e me traz também uma tequila com duas fatias de limão.

Oração de um solteiro.

Deus pai, querido. Não me deixeis cair na tentação do matrimônio. Guarda-me das bandidas como me guarda da solidão. Traz a mim tuas filhas safadas, àquelas que me deleitaria repousar aos seios. Dá-me força para tolerar a noite toda, e suprime a mim de Xiboquinha até os primeiros raios de sol da manhã. Eleva-me à estatura de garanhão, enche minha casa (que proferida na fábula da pedra) de música, de rock n roll, e garotas hards. Ó Deus que tudo pode, é tão pouco que lhe peço. Tende piedade deste pequeno pecador, que só quer dar mais uma pecadinha… Senhor, verás que sempre fui fiel a ti, nunca roubei, apenas emprestei a mulher do próximo, nunca menti, apenas omiti que com ela eu não casaria. Senhor, tende piedade das mulheres também, que neste sistema capitalista são tão oprimidas ó Pai. Dê a elas toda a independência que dá aos seus filhos. Guarda-as senhor (para nós é claro). Creio no seu poder altíssimo. Creio que podes me preencher da alegria dos ébrios, creio que no meu quarto podem surgir rios de todas as espécies de fêmeas ó grandíssimo. Ò santíssimo, prometo nunca mais proferir falso testemunho se atenderdes meu humilde pedido Senhor. Prometo também contribuir para o não crescimento populacional ó Pai, usarei sempre preservativos ó Deus dos Deuses. Prometo que tu serás único! Nada de Mitologia Grega, nada de outros deuses. Fé somente em ti. Ajuda-me! Faz de mim um instrumento seu aqui na terra, e garanto-lhe ó Pai, converterei a ti todas as mulheres que a mim enviar. Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Mais um dia de trabalho.

     Faltavam apenas duas horas para se encerrar o expediente. Seria o último dia de trabalho naquela mórbida repartição, a ansiedade tomava conta de Murilo. Durante vinte e cinco anos dedicava-se exaustivamente ao serviço público, acreditando deveras que contribuiu muito para a sociedade. Mas naquele resto de tempo refletia se realmente o havia feito. Lembrava que raramente se divertira, a não ser as poucas vezes que com companheiros de ofício bebera algumas cervejas. Solteiro, Murilo via que sua rotina trabalho-casa tinha sido a regra durante praticamente toda a sua vida, e que seria perfeito a aposentadoria à esta altura. Sentiria saudades é claro, do chefe – muito gente boa, dos cafezinhos de dona Palmira, das piadas do Sebastião, e claro, de Flavinha. Uma espécie de diabo em forma de Office-girl, uma subordinada que trazia na inocência das suas roupas um mistério erótico que Murilo sempre pensou em desvendar, mas lhe faltara coragem.
     No momento em que o já aposentado batia o cartão pela última vez, foi surpreendido pelos amigos que lhe prepararam uma festa de despedida. Após comes e bebes, Flavinha lhe chamou num canto:
     – Seu Murilo, vou ser sincera. Sempre tive uma tara pelo senhor.
     Chupou-o e pediu que gozasse na cara.
     Murilo foi para casa. Pensou, pensou e pensou. No dia seguinte voltou ao trabalho.

Miguel.

Miguel era um homem rude. Sua defesa, o ataque. Ganhou estourado nas eleições graças ao seu programa de rádio, “Pau de arara! Sem vergonha! Este vagabundo matou a mulher à facadas! Tem que ir para a cadeia!”. O sensacionalismo estava impregnado até nas suas roupas. Em sua coluna semanal no Jornal O Dia dedicava-se à ácida crítica ao nada, ressaltava a importância da sociedade se desenvolver economicamente, importava-se também com agradecimentos aos industriais, amigos comunicadores e políticos da sua aliança partidária, “um perfeito trampolim às custas dos desmilinguados”. O estudante de jornalismo que gravou a frase não demorou em perder o estágio na TV Comunitária do bairro. É válido dizer que seu editor chefe quando recebeu a fita disse: “Está louco? Quer ferrar com a minha vida?”, claro que não foi ao ar. Mas em Curitiba a grande maioria dos políticos vem dos veículos de comunicação, de geração em geração, o que mudou é o fato de agora eles se elegerem muito mais cedo, não precisa ter plataforma política, basta dizer “De pai para filho, paixão pela cidade” e pronto. Porém, Miguel tinha um diferencial, seu currículo era extenso… Sem contar que ele já era macaco velho no assunto. Todas as terças e quintas, ao chegar em seu gabinete, pedia para a sua secretária Samanta – antes garota de programa com a qual mantinha caso e lhe cobrou uma boquinha prometendo votos de boa parte da sua classe – para que conferisse se as “coisas” estavam em ordem. As “coisas” bem poderiam significar projetos em prol da população carente, mas na verdade tratavam-se de esquema no jogo bicho; sociedade numa Ong “em defesa das crianças carentes” que garantia gordos descontos do imposto de Miguel e de mais 9 vereadores, 5 deputados, 1 senador e 34 empresários; “investimento na poupança” – parceria em casas noturnas e também o esquema do “rapidinho”, que certamente o leitor deve conhecer. Ou será que nunca ouviu falar do caixa dois dos transportes? Depois de conferir os negócios, Miguel piscava para Samanta. Esta já sabia do que se tratava. A nobre secretaria fechava a porta, enfileirava o pó na mesa, cheirava e de joelhos levava o ilustríssimo aos céus. Até Renan teria inveja, dez minutos de prazer e a rotina de trabalho diária estava consumada, agora poderia ir para casa tranqüilo. Diante da esposa o adúltero até que não era tão grosso. Beijava-lhe a mão, chamava-a de “meu dengo”. Só não abria mão do casamento da filha com um playboy filho do senador. Ah, isto ele cobrava. A filha por sua vez não rejeitava. Aos 17 ela era idealista, chegou a entrar num partido de ultra-esquerda só para afrontar a moral do pai. Mas Miguel colocou-a para trabalhar no Cartório de um amigo seu. Quando ela percebeu o golpe milionário que o pai tinha dado nos irmãos no momento de repartir a herança dos avós, ela pensou “Graças a Deus. Sábio papai que garantiu nosso caviar”. De pai para filha, paixão… Acontece que um belo dia Miguel decidiu conferir os negócios mais de perto. Ao visitar uma das boites que financiava, bebeu tanto que começou a ter alucinações. Ali mesmo, aos seios de uma bela dama, dormiu. Sonhando, Miguel se viu 20 anos mais novo, no início do seu trabalho quando assumia o posto do pai numa loja de carros na avenida Marechal Floriano. Ali onde antes Miguel havia aplicado diversos golpes superfaturando veículos vendidos, agora o jovem exercia uma função de vendedor honesto. Alertando os clientes dos perigos dos Bancos, acabava por ressaltar que valeria muito mais para o comprador juntar o dinheiro antes e a partir de um planejamento fugir da prestação e realizar seu sonho comprando à vista, com muito mais segurança. No sonho, Miguel ganha fama de vendedor justo. Uma pérola do comércio em Curitiba, sendo procurado por inúmeras pessoas.  Seu sucesso foi tanto que logo já era dono de 12 lojas na cidade. Com tamanha fama não foi difícil se eleger para a Câmara Municipal. Negando propina, denunciando esquemas, criando projetos para o bem estar de todos, Miguel era aclamado pelas massas. Sentia o orgulho de um grande líder. Um sentimento de prazer que ia além do que o dinheiro poderia um dia lhe oferecer. Sua filha estava apaixonada por um cara que não era rico, mas trazia na consciência a grandeza de um homem justo e digno, com forte espírito de um trabalhador. Isto lhe deixava feliz. Via que aquele mundo valia a pena. Que sendo um político de boa índole ele também poderia gozar das alegrias da vida, que inclusive eram muito maiores. Uma vida perfeita! Os anos se passaram e Miguel se via com 80 anos. No quintal de sua fazenda via os netos alegres a brincar, o doce genro na churrasqueira recebendo carícias no cabelo de sua apaixonada esposa.  Sua mulher, agora autora de cinco livros em que relatava a sua paixão pela vida, lhe mandava beijos e lhe escrevia bilhetes com frases íntimas, como por exemplo:  “você está muito bonito hoje”. Nesse momento Miguel estende a mão para abraçá-la.  Antes de conseguir, desperta do sonho. Acordando entre os seios da bela dama, Miguel atormentado despede-se e com pressa volta para casa. Estaciona o carro na garagem de qualquer jeito, deixa a porta aberta, sobe correndo as escadas, sua respiração era cada vez mais forte, queria ver sua esposa. Ao chegar à porta do quarto reduz, entra de mansinho, ela ainda deitada, Miguel observa os primeiros raios de sol da manhã ignorarem a cortina e clarearem o belo rosto da sua mulher. Beija-lhe a testa, toma um banho, e vai ao gabinete. Na sua cabeça não havia dúvida, sabia o que ia fazer. “Bom dia dona Samanta. Por gentileza, confira minhas ligações, reúna todos os membros da minha sociedade, diga-os que temos uma reunião extra-ordinária”. A secretária não entendia qual a sua intenção, mas dirigiu-se a porta para sair e cumprir as ordens. “Espere Samanta. Antes disto, confira as coisas…”, e pisca como sempre.

Carola. (um conto sombrio para um concurso sombrio)

            Era 31 de julho de 1978. No dia em que Chico Xavier psicografava uma mensagem de Allan Kardec, Carola perturbava Paulinho – como de rotina, dizendo que Julia era uma vadia, piranha, e que lhe sugaria até o último tostão, “se isso for possível é claro”. Paulinho não entendia. Como meu caro? Você não entendeu se Paulinho não entendia se Carola estava dizendo que ele era um pobre ou se ele era pão duro? Calma, logo você compreenderá que Carola era a mãe mais infernal do mundo…

            Mesmo ao doze anos de idade (idade de Paulinho, é claro) Carola fazia o filho ir ao Ceasa às quatro horas da manhã só para comprar um quilo de verdura, o coitado andava cinco quilômetros só porque a senhora não queria lhe dispensar umas moedas para a condução. Mas não pára por ai, Paulinho, tadinho, certa vez foi lhe mostrar o boletim da escola. Despudorada, a velha lhe socou a testa até lhe abrir um rombo do tamanho de uma bunda bem no vão entre o olho esquerdo e a parede do nariz, que a esta altura estava roxo de tanta chinelada na cara. Como não bastavam as surras, as humilhações em público eram freqüentes; Paulinho era tudo, de “pirralho” até “pulga de porco”. Isso para lhe poupar caro leitor, dos palavrões sórdidos da desbocada anciã.

            Mas naquele inverno de 78, o sangue escorreria sobre a família e libertaria os oprimidos, posto que a luta de classes tarda, mas não falha, estava chegando o dia de Paulinho. Ou será de Carola, amigo leitor?

            Bom, o fato é que dona Carola sentia fortes dores no coração. Paulinho dobrou a escala de trabalho para dar conta dos remédios caros, todos para enfartados. Sempre que abria a porta do quarto – ele o Paulinho, a velha resmungava “seu infeliz, me trouxe o medicamento?”. “Sim mamãe”. “Mamãe? Seu verme, em breve chamará aquela sem teto de mamãe”. E a medida em que sua doença crescia (da velha), aumentavam os adjetivos e o horário de Paulinho na Padaria da Cida, onde ele, O Paulinho caro leitor, trabalhava. Por favor, não confunda, os adjetivos também eram para o filho “desgraçado”, se Dona Carola nos permitir plágio do xingamento é claro. Mas eis que vem a catarse desta deslavada estória…

            Os dias se passaram e Julia intimou o rapaz:

-         Olhe querido. Eu não agüento mais sua mãe. Ou eu, ou ela. Você sabe que te amo,

mas é que não tem como. (Aqui caro leitor, é bom lembrar que sempre que nos deparamos com um ultimato destes, é porque o requerente já fez sua opção).

-         Calma querida, ela está morrendo.

Dona Carola como era boa de ouvido, ouviu os cochichos que vinham da sala e respondeu:

- É isso né seus calhordas? Vocês querem a minha morte!

            A partir daí Júlia desistiu. Arrumou as malas e foi embora. Carola passou também a beliscar e cuspir em Paulinho toda a vez que este ia lhe dar banho ou aplicar as injeções necessárias ao tratamento. Os dias se passaram e Paulinho estava exausto. Trabalho, trabalho e mais trabalho. Solitário, sem o corpo de Júlia em detrimento do de Carola, o filho amável agora era um zumbi. Além dos desaforos, ele (Paulinho), tinha de suportar as insônias e broncas do chefe que já estava para demitir o funcionário apelidado de “senhor olheiras” pelos companheiros de ofício. Fornadas de pão queimadas, e descontadas do seu pagamento é óbvio.

            Antes mesmo do fim da estação, mas bem depois da partida de Júlia, Carola finalmente faleceu. No momento do fato, ela estava segurando as mãos do filho enquanto tentava concluir que “Ela era independente o suficiente para ser cuidada por um idiot…”.

            Durante o enterro de Carola, Paulinho acendeu um cigarro (é válido lembrar novamente caro leitor, que Carola não permitia que Paulinho fumasse, enclausurando assim o único vício do rapaz). Enquanto deliciava-se com um Carlton vermelho, Júlia se aproximou e o abraçou.

-         Finalmente livres.

-         Sim, finalmente livres.

FIM.

Continuação…

… Como amigo leitor? Você não achou este conto sombrio? Pois bem, vou lhe dizer o que é sombrio. Sombrio é você amigo leitor, lendo apenas algumas linhas, desejar a morte de uma velha senhora sem ao menos saber se ela era abusada sexualmente, sofria de Alzaimer ou apanhava do filho. Isso sim é sombrio caro leitor…

Caros amigos.

Caros amigos. 

Obrigado por visitarem meu espaço na internet. Semanalmente estarei postando meu trabalho neste blog, seja um conto, uma poesia, crônica ou artigo. Espero que gostem, um grande abraço. 

Raul Koliev.